Daniel Paixão
Daniel Paixão

Coluna

Papudiskina

2017, o ano em que a indignação superou as esperanças...

29/12/2017
Publicado em: 29 de Dezembro de 2017

 2017, o ano em que a indignação superou as esperanças...

Em 2016, depois de intensa batalha nos tribunais e no Congresso Nacional, finalmente a presidente petista, Dilma Rousseff, foi deposta do cargo. Apesar de reeleita por mais de 54 milhões de votos, pairava suspeitas de que Dilma elegeu-se ao ser beneficiada por uma fraude eleitoral. Os protestos e manifestações contra seu governo em todas as cidades do Brasil pareciam realmente confirmar a suspeita de que ela se elegeu com arranjos de alguém ligado ao Tribunal Superior Eleitoral. Era difícil imaginar alguém com rejeição superior a 85% ter sido reeleita. Assim, houve muita esperança de que 2017, já sem a figura de Dona Dilma, o país fosse melhorar e que finalmente as investigações da Lavajato conduziriam à cadeia figuras como Luís Inácio da Silva, a própria Dilma Rousseff, Renan Calheiros, Romero Jucá e tantas outras figuras da República.
Esperava-se também que Michel Temer, que herdou o mandato, faria a diferença e conduziria o país a uma grande reconciliação nacional. Desde que assumiu, no entanto, o presidente só fez besteiras. Logo de cara, contrariou a todos ao nomear como ministros vários políticos denunciados e indiciados por atos de corrupção e crimes variados juntos ao STF. Alguns sucumbiram à pressão da sociedade, mas depois que o próprio Michel Temer passou à condição de denunciado, começou o vale tudo nesse governo. A ética e a moralidade pública é o que menos conta nesse atual governo. A população tem a clara consciência de que o que houve com o impeachment em 2016 é que os criminosos brigaram entre si e um grupo assumiu a postura “moralista” apenas para iludir a sociedade, depor os criminosos que estavam à frente do governo e assumiram o seu posto, sem, no entanto, abandonar a prática criminosa.
O que se viu é que o atual presidente parece tão ou mais culpado do que a ex-presidente Dilma Rousseff. Durante os debates na Câmara e no Senado, tentou-se passar a imagem de que a corrupção no país tinha como principais culpados o PT e os seus aliados que compartilhavam a mesma ideologia esquerdista como o PCdoB, PSOL e PDT e mais um ou outro político de outro partido, mas que representavam a minoria entre o grupo e que após a deposição do governo petista, todos os corruptos seriam defenestrados da política brasileira e teríamos um grande acordo nacional para que se iniciasse um processo paulatino de depuração.
Mas a troca de comando na Presidência da República trouxe apenas frustrações à população brasileira. Ficou claro, para todos nós, que o PT realmente abriu a porteira para a corrupção, mas em um modelo perverso de presidencialismo de coalizão, políticos de praticamente todos os partidos e ideologias participaram do desmanche do Estado Brasileiro. Gente de todos os partidos, cores e matizes integrava o bando. Se formos olhar apenas as siglas partidárias como um todo, vê-se que não salvou ninguém. Se tem um ou outro político que não esteja envolvido (são raríssimos), deve se atribuir essa exceção ao seu caráter como ser humano. 
 
Ascenção da direita conservadora
O mais curioso que se viu com a derrubada do PT é que a tal direita conservadora, monopolista e perversa que era denunciada antes de a esquerda chegar ao poder, na década de 80 e 90, mas se parecia com centro-esquerda se for comparada com os atuais governantes que emergiram com a derrubada do PT. Conquistas sociais obtidas ao longo das últimas décadas, incluindo o período em que o PSDB (demonizado pelo PT) esteva no poder, foram atacadas uma a uma pelos atuais governantes e seus aliados na Câmara Federal e no Senado. O atual staff político não teve escrúpulos ao atacar os direitos da classe trabalhadora e tenta agora fazer o mesmo com os aposentados, em uma reforma perversa, a qual dizem que vem para corrigir distorções, mas não corta em nada os privilégios da classe política e as grandes figuras do Poder Judiciário. 
Claro que para fazer passar essa reforma, era preciso não atacar direitos dos militares e do judiciário. A classe política sabe que não pode mexer com quem tem o poder de condenar seus membros nos tribunais e menos ainda com quem, se for contrariado, pode mobilizar homens armados para ocupar o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto. Os políticos não são loucos de contrariar o Judiciário e as Forças Armadas. O governo que emergiu da queda do PT também precisava agradar a classe empresarial, especialmente a elite paulista simbolizada pela FIESP e seus patos amarelos, e por isso os novos donos do poder cuidaram logo de atacar, de uma só vez, os direitos dos trabalhadores e aniquilar qualquer força que pudesse os socorrer junto aos tribunais. Como fizeram isso? Ao aprovar o fim da obrigatoriedade de contribuição sindical, cuidaram de aniquilar os sindicatos. Claro que, ao longo das últimas décadas, com o inchaço do sindicalismo, a falta de fiscalização em suas atividades e as mordomias de muitos de seus dirigentes contribuíram para isso. Ainda assim, o parlamento foi longe demais nessa reforma trabalhista. Violaram inclusive princípios constitucionais e muito do que foi aprovado terá de ser revisto nos tribunais. Se quisessem realmente melhorar a situação, essa reforma deveria impor regras e limites para a criação de sindicatos, regras para sua composição, evitando-se os abusos dos maus sindicalistas, mas jamais deveriam ter aprovado o fim da contribuição sindical obrigatória. Sem essa contribuição, os sindicatos perdem força como representantes das categorias menos influentes. Claro que sindicatos de categorias mais esclarecidas, como a dos bancários e metalúrgicos, conseguem sobreviver. Mas como garantir a sobrevivência de sindicatos que representam, por exemplo, os comerciários sem a contribuição sindical? Como convencer que empregados de pequenas empresas se sindicalizem sem sofrer a coação de seus patrões, já que essas empresas geralmente têm alguns poucos empregados e na melhor das hipóteses, poucas dezenas deles? Esse governo, juntamente com os congressistas que o sustentam, foi marcado por esquartejar a boa e justa CLT e retirar a maior parte dos direitos da classe trabalhadora. A CLT, é verdade, precisava de ajustes, mas não da forma como fizeram. Enfim, 2017 será sempre lembrado pela classe trabalhadora como o ano em que um Congresso e um Governo a serviço da elite conservadora atacou seus direitos de forma vil e covarde como jamais se imaginou que ousassem tanto.
 


Fonte: Daniel Oliveira Paixão

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